O que rolou na 7ª Conferência de Energia e Recursos Naturais da América Latina?

Postado em 03/09/2018 • Categorias: Artigos, Eventos, Get Informed

Nesta última quinta-feira, 30/08, ocorreu no Belmont Copacabana Palace a 7ª Conferência de Energia e Recursos Naturais da América Latina, promovido pela KPMG, com o tema Powering the future with the next generation of energy, onde foi abordado a transformação do setor de Energia e Recursos Naturais refletida pela própria transformação do mundo. O evento contou com grandes nomes de referência na Indústria de Petróleo, Gás e Energia do Brasil, além das principais lideranças da KPMG para o setor, e pra fechar com chave-de-ouro, teve todo o requinte do Copacabana Palace que abrilhantou o evento. Agradecemos ao Anderson Dutra, Sócio Líder da área de Óleo e Gás da KPMG, pelo convite ao Comitê Jovem do IBP, dando oportunidade de estarmos lá e podermos agora compartilhar um pouco do que rolou por lá.

Na parte da manhã, os destaques foram para abertura do evento, com Manuel Fernandes, sócio-líder de Energia e Recursos Naturais da KPMG no Brasil, no qual destacou o foco dado aos 4Ds na indústria de energia:

  • Digitalizaçãoadoção de novas tecnologias digitais, mudando também as relações de trabalho
  • Descentralizaçãoabertura do mercado para mais players
  • Descarbonizaçãoredução da pegada de carbono
  • Democratização – acesso da energia para todos

Um exemplo disso, já são casos de sucesso apresentados, tais como redução do tempo para produzir petróleo graças ao avanço das tecnologias e também no setor de mineração onde uma multinacional conseguiu reduzir 93% de utilização da água na produção do minério e 50% na emissão de carbono.

Reforçando os 4Ds, a Regina Mayor, líder global de Energia e Recursos Naturais da KPMG, logo no início da sua fala ela trouxe um vídeo prevendo um cenário de como será a indústria de energia e o mundo desde o nascimento do Jason, bebê nascido em Junho de 2018, até a inserção dele no mercado de trabalho em 2040: um mundo cada vez mais digital, mobile, adepto ao compartilhamento de recursos, preocupado com a descarbonização e que seja preocupa com o acesso dos recursos à todos também. Ou seja, nos trouxe a reflexão de que tipo de indústria seremos para receber o Jason e seus bilhões de conterrâneos da Geração Z que serão a força de trabalho em 2040.

Logo depois falou sobre as perspectivas globais para o setor de energia de acordo com a pesquisa realizada em 2018 com milhares de CEOs ao redor do mundo. De acordo com os números compartilhados, o cenário parece muito bom:

  • Do total dos CEOs entrevistados, 90% estão confiantes que a empresa vai crescer nos próximos anos.
  • Quando se olha para apenas CEOs da América Latina, essa confiança aumenta para 96%.
  • Focando apenas em empesas do setor de Petróleo e Gás e Utilities, esse número cai para 88% e 89% respectivamente, o que ainda é muito bom.

Pelo menos no Brasil, o otimismo no setor de óleo e gás não é pra menos: há previsão de aumento da produção de petróleo para 5,5 milhões de bpd e entrada em operação de +50 FPSOs em 10 anos.

Ela lembra, no entanto, que, para navegar com sucesso nesse mundo, é necessário entender quais são as principais forças disruptivas que estão em jogo, nos quais ela dividiu da seguinte forma:

Também tivemos a palestra do Amilcar Guerreiro – Diretor de Estudos de Energia Elétrica da EPE, sobre os principais desafios do cenário de energia no Brasil, como por exemplo, a dificuldade das energias renováveis serem transformadas de forma rápida em potência, diferentemente das energias mais tradicionais como hidráulica, e fóssil onde é possível armazenar a energia e rapidamente transformá-la em potência.

Cenário Geopolítico na América Latina, foi o tema trazido pelo Christofer Garman, Cientista político norte-americano e diretor do Eurasia Group. Ele também foi o moderador de um painel sobre Desafios e perspectivas das Empresas que contou com painelistas de peso como: André Clark, presidente e CEO da Siemens no Brasil; José Firmo, presidente do IBP e Ruben Fernandes, CEO da Anglo American. Eles fizeram suas análises sobre o impacto das eleições e a geopolítica para o futuro da indústria no país. De acordo com eles, independente do resultado da eleição deste ano, a indústria não terá nenhum impacto pelo menos à curto prazo devido ao bom trabalho que vem sendo feito até então. A grande questão é em relação ao médio e longo prazo que será definido dependendo das ações que este presidente que assumir fará, ressaltando que a indústria de energia é de planejamento de longo prazo e portanto, as ações devem ter previsibilidade e continuidade para que dê certo, caso contrário, só gera incertezas e perda de investimentos.

Para fechar a manhã, tivemos o Painel Jornada da transformação digital: agilidade, a única variável controlável, cujo moderador foi o Oliver Cunningham, sócio-líder de Innovation & Transformation da KPMG no Brasil, e contou com os Painelistas Carlos Alexandre Prado, Gerente executivo do ONS; Augusto Borella Hougaz, Gestor do Projeto de Transformação Digital da Petrobras e Ricardo Kahn, Gerente de Inovação da ISA CTEEP.

Segundo eles, a Transformação na indústria de energia deve-se ao que está mudando na cadeia de valor. As Fronteiras estão muito mais tênues, pois a cadeia de valor não está tão compartimentada como antigamente. A Cadeia deixa de ser linear e passa a ser fluida, em rede, desenhada de tal forma que players que ficavam distantes dos consumidores na cadeia de valor agora assumam uma posição de maior protagonismo. A transformação digital é o capacitor para isso acontecer.

O modelo de empresas lineares está ruindo. Estão transformando o discreto em contínuo. Indústria 4.0 é uma evolução das transformações e revoluções industriais que ocorrerão. Transformações são uma constante, mas o que muda desta vez é o Digital: seria a Uberização da indústria?

Tecnologia se compra, e por isso o grande desafio é a construção de modelos de negócio e organizações inteligentes. No entanto, o setor de energia não tem esse foco, ainda. Suas atenções estão voltadas para aquisição e análise de dados (big data e analytics), integração de plataformas de comunicação entre diversas empresas da cadeia de valor, suporte a tomada de decisão e segurança cibernética.

Para todas essas mudanças se materializarem, os colaboradores devem estar habilitados e engajados. Desta forma, isto é um problema fundamentalmente humano. A chave é passar do modelo mental analógico para o digital, saber lidar com as transformações em voga, e criar/adaptar os trabalhos nos quais são exigidas habilidades de sense-making, resolução de paradoxos e criatividade, por exemplo.

Na Petrobras, por exemplo, foi realizado um diagnóstico para entender o que se estava fazendo no mercado e terá 3 focos: 1) incremental no negócio, através da realização de programas pilotos em cada área, permitindo assim avaliar o nível de maturidade de cada uma. 2) incubação para ações disruptivas e 3) Revisão do Road Map tecnológico do CENPES, à luz do potencial de utilização das tecnologias digitais.

Já na ISA CTEEP, foi montado um hacking corporativo em uma de suas sedes com o objetivo de se desenhar o centro de operações de energia do futuro. Startups, pequenas e grandes empresas tiveram uma imersão de um dia para conhecer a estrutura. Foi disponibilizado um pacote de dados para análise e elaboração de propostas e soluções, originando um total de 23.

Os dois exemplos acima mostram escolhas diferentes para lidar com este grande desafio. Enquanto a Petrobras muda sua estrutura organizacional para desenvolver expertise interna de resolução de seus gargalos de negócio, a ISA CTEEP assume uma postura mais aberta e colaborativa focada mais nos resultados da solução que será criada.

Augusto Borella esboça uma explicação da dualidade acima com o conceito de “ambidestria”. Quando uma empresa tende a ter processos muito bem controlados em torno de criação de soluções, ela acaba por esgotar o espaço de erro que é inerente ao desenvolvimento de algo novo. Sua tolerância ao erro é menor e acaba por diminuir o potencial criativo e inovador. Uma postura mais aberta pode proporcionar a oxigenação a novas ideias e liberdade criativa essenciais para a validação das hipóteses em torno da solução.

Já na parte da tarde, na Break-out Session sobre Oil & Gas, tivemos José Mauro Coelho, Diretor da EPE falando sobre Planejamento Energético e cenário da indústria de Petróleo e mundo, no qual o principal destaque foi o bom posicionamento do Brasil no Planejamento Estratégico. Em 2030, o Brasil pode se tornar um dos 5 maiores exportadores de petróleo, com produção de óleo e gás vai sair de 2,6 milhões para 5,5 milhões e exportação de 1,0 milhões para 3,6 milhões em 2030. Além disso, já somos um grande produtor de biocombustíveis, sendo o 2º maior de etanol e biocombustíveis. Para chegar lá, o Brasil já vem estabelecendo diversas iniciativas nos últimos anos com o objetivo de promover um maior dinamismo aos setores de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, são eles: REATE, Combustível Brasil, Gás pra Crescer e RenovaBio.

Ele também mencionou o debate entre Pico de oferta ou pico de demanda. A verdade é que já deixamos de nos preocupar com o pico da oferta e começamos a nos preocupar com o pico da demanda. Especialistas preveem que o pico da demanda será em 2030 e 2040. Porém, mencionando o Presidente do IEA, ele comenta que os carros elétricos não vão acabar de vez com os motores à combustão, e sim, acreditam que o futuro dos veículos elétricos será uma combinação de motores mais eficientes, veículos elétricos e biocombustíveis.

 No Painel sobre oportunidades e tendências na visão do investidor, Marcelo Magalhães, CEO da PetroRecôncavo destacou que o Projeto Topázio está parado não por causa de falta de demanda mas sim da oferta. Esses imbróglios estão impactando o investimento nessas áreas. Perguntado sobre a nova modalidade de investimento que tem surgido na Indústria de Petróleo e Gás, o Private Equity, Renato Bertani, CEO da Barra Energia, contou um pouco da experiência bem-sucedida que ocorreu com eles,  e disse que Private Equity, embora seja uma modalidade diferente de investimento, ela tem os mesmos interesses: remunerar o capital. A diferença é a velocidade desejada do retorno do investimento que é de 4 a 6 anos. Esse tipo de investidor não tem aversão a riscos geológicos e operacionais mas tem muita aversão ao risco geopolítico e sua instabilidade, o que prejudica muita esse tipo de investimento no Brasil. Por último, os painelistas foram unânimes em dizer que é necessário haver maior liquidez dos ativos no Brasil, especialmente  na indústria de Petróleo e gás, para que haja mais Investimentos através da entrada de novos investidores.

No último painel sobre Disrupção: tecnologias e novos modelos de negócios, Claudio Makarovsky, Head de Óleo e Gás da Siemens destacou que a indústria que mais usa dados no mundo é a de petróleo, e que a maioria da base das tecnologias digitais já existiam há 50 anos atrás. A diferença é que a velocidade de desenvolvimento, gerou escala das mesmas e consequentemente reduziu o custo de utilização. Com a utilização dessas tecnologias de monitoramento e processamento dados pode-se, inclusive, ajudar na redução da emissão de carbono, pois segundo ele, grande parte da emissão de carbono hoje deve-se à máquinas ineficientes.  Alejandro Duran, Country Manager no Brasil da Baker Hughes GE, por sua vez, alertou que o processo de desenvolvimento tecnológico deve ser repensado para ser mais rápido. Co-criação e cooperação são mandatórios, sendo necessário criar infraestrutura e processos que permitam isso, como por exemplo a utilização do Blockchain.

Finalizando o evento, a escritora, consultora e palestrante nas áreas de marketing digital, inovação e educação, Martha Gabriel, fez uma apresentação super didática sobre a mudança de mind set necessária para conseguirmos entender a Transformação Digital em curso. Ela trouxe diversos insights próprios e de diversos especialistas no assunto para ilustrar com o que estamos lidando e como precisamos nos preparar, dentre elas destaco:

  • É preciso mudar rápido para que não seja engolido pelo que acontece fora;
  • Máquinas são as respostas, e humanos precisam focar nas perguntas;
  • O que nos diferenciará como seres-humanos são emoção, ética e empatia. Isso os robôs não conseguem copiar;
  • Estar atento às megas tendências – elas nos ajudam a direcionar para onde ir. Os produtos e tecnologias nos ajudam à chegar lá;
  • Há uma mudança no polo de valor em curso: Da Mecânica para Digital, do Hardware pro Software, Produto para Serviço, Tangível para Intangível.
  • Precisamos pensar globalmente e não localmente.

Como vocês podem ver, o evento foi capaz de nos aparelhar com conjunto de conhecimentos necessários para entender a mudança que já está em curso no mundo e na indústria de Energia e Recursos Naturais. Espero que tenham gostado e sempre que possível, estaremos escrevendo sobre esses temas para que possamos ajudar ainda mais no desenvolvimento profissional de cada um.

Esse artigo foi escrito à 4 mãos: Victor Couto Alves, Especialista em Gestão do Conhecimento da TechnipFMC e Christiano Lins, Consultor da KPMG. Ambos são membros do Comitê Jovem do IBP. A seguir o perfil de cada um.

Victor Alves é formado em Tecnologia em Petróleo e Gás e Engenharia de Produção. Possui +8 anos de experiência na área de Petróleo e Gás, mais especificamente com Operações de Campo. Começou sua carreira trabalhando no campo pela UTC Engenharia e Transocean e desde 2011 está na FMC Technologies, atual TechnipFMC, no qual trabalhou na área técnica, de contratos e mais recentemente Coordenador de Serviços da unidade de Surface Americas no Brasil. Atualmente, é Especialista em Gestão do Conhecimento na TechnipFMC, com a missão de coordenar as comunidades de prática e desenvolver estratégias de colaboração em ambientes digitais.

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/victortecnopeg/

Christiano Lins Pereira é Consultor no Centro de Excelência em Óleo e Gás da KPMG Brasil, Engenheiro de Petróleo e Minor em Empreendedorismo & Inovação pela UFF, bem como Membro do Comitê Jovem do IBP.

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/clinspereira/

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Victor Alves é formado em Tecnologia em Petróleo e Gás, Engenharia de Produção e possui especialização em Gestão do Conhecimento e Inteligência Empresarial pelo CRIE/Coppe. Possui +8 anos de experiência na área de Petróleo e Gás, mais especificamente com operações de campo e desenvolvimento organizacional. Atualmente, é Especialista em Gestão do Conhecimento na TechnipFMC, com a missão de coordenar comunidades de prática e desenvolver estratégias de colaboração em ambientes digitais. Linkedin: www.linkedin.com/in/victorcalves
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